Houve
um assassinato aqui no bairro, uma mulher perdeu a linha, cansou de apanhar, deu duas facadas no marido e acabou matando o cara. Fosse o contrário e a polícia fazia até vista grossa pro cara fugir, mas como foi uma mulher que mandou brasa, tinha blitz hoje em tudo que é canto, com direito à foto e se bobear, estava escrito "PROCURADA" ali, com recompensas e o que mais. Meu marido passou por uma dessas blitz. Fala sério.
Me entendam. Não estou dizendo que ela tinha razão em matar, estou dizendo que aporrinhação, assédio constante e uma vítima acuada podem produzir cenários dantescos, com direito ao fogo do inferno e o que mais na sobra. No caso em questão, pareceu mais uma cena de filme de cangaço, mas tudo bem. Há cactos aqui nas cercanias e gibão de couro sempre pode voltar à moda.
A tese do advogado dela é legítima defesa, a do advogado do finado é .... ver que bicho que vai dar. Sobre a legítima defesa, pode ser mesmo. Tive prima que apanhou anos do marido até perder a calma e enfiar-lhe a porrada, mas de mandar pro hospital e quase matar. De porrada. Juro.
A pergunta que fica é a de sempre: porra, porque se deixou espancar?
Cara, posso te dar zilhões de motivos.
Um dos mais básicos é doença mental. É. Maluquice pura. Um monte de gente não anda atrás de quem o chuta no sentido figurado? Tem maluco pro sentido literal também, seja marido, esposa, namorado, filho, mãe. Uma baixa auto estima e um desejo doentio de se desconectar de suas necessidades - talvez por não suportá-las - e satisfazer o outro, numa anulação demente, é mais comum do que se imagina. Não tou falando só de parceiro não, conheço muito caboclo aí que a mãe e qualquer outro familiar faz e desfaz e ele fica ali que nem cachorro babão. Triste e enche consultório, enriquece dono de farmácia que vende psicotrópico e em último recurso, dá trabalho pra polícia, chateação pra juiz e vende jornal.
Não sei o que vai ser dessa dona, nem do moleque de cinco anos que entrou de pato nesse embroglio. Sei que não foi premeditado e que ela arrumou uma merda piramidal pra vida dela. Teria sido melhor ter ido embora de casa, mas a gente sabe que tem muito homem que ameaça e ás vezes cumpre - e também sabemos que a justiça e a polícia não fazem quase nada pra impedir a tragédia e vida real não é jogo do Mario Bros, que dá pra recomeçar e você tem sete vidas. Aqui morreu acabou, é só lembrar da Eloá e da moça que trabalhava em uma academia em São Paulo. Não adianta dar queixa, não adianta pedir proteção porque não vai conseguir. O que resta, na maioria das vezes, é o desespero, o medo, o acuamento . Claro que tem muita piranha também, não vou mentir: muita mulher que toma as porradas porque intica até acontecer e aí vai de vítima pro delegado,processa o cara e tudo. Mas a maioria tem é medo mesmo, medo dele matar, dele matar os filhos.
E o medo... O medo é o que liberta nossos demônios mais violentos.